quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Porque relembrar é viver, então... Vou - me embora pra pasárgada.
Mais um ciclo que se fecha, mais um final trágico, mais um começo esperado.
Tudo é aprendizado, mesmo que nem tudo valha a pena.


Então vamos buscar,
aventuras experimentar,
beijar flores e cores
Viver todo o dia antes que seja muito tarde
Para eu poder sonhar
Agora é Tarde Para eu poder brincar
E o trem já está partindo, o trem já está partindo.
tarde, para eu poder jogar
tarde, para eu poder ganhar
e o trem vai decolar, o trem vai decolar.

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