O Livro do desassossego.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
O Livro do desassossego.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
“Num dado momento penso que num canto de mim nascerá uma planta. Começo a rondá-la, achando que nesse canto se produziu alguma coisa rara, mas que poderia ter futuro artístico. Eu estaria feliz se essa idéia não fracassasse de todo. Contudo, devo esperar por um tempo ignorado: não sei como fazer a planta germinar, nem como favorecer seu crescimento, nem como cuidar dela; só pressinto ou desejo que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se certos olhos olharem para ela. Devo tomar cuidado para que não ocupe espaço demais, para que não pretenda ser bela ou intensa, mas que seja a planta que ela mesma está destinada a ser, e que eu possa ajudá-la a sê-lo. Ao mesmo tempo, ela crescerá de acordo com um observador que não se importará muito em querer lhe sugerir intenções ou grandezas demais. Se for uma planta dona de si mesma, terá uma poesia natural, desconhecida para si própria. Ela deve ser como uma pessoa que não sabe quanto vai viver, mas que tem necessidades próprias, com um orgulho discreto, um pouco desajeitada, e que pareça improvisada. Ela não conhecerá suas próprias leis, embora as tenha no mais fundo e a consciência não as possa alcançar. Não saberá o grau e a maneira como a consciência intervirá, mas em última instância imporá sua vontade. E ensinará a consciência a ser desinteressada.”
Felisberto Hernández
sexta-feira, 16 de outubro de 2009

[Persona non grata]
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
(Raduan Nassar - Lavoura Arcaica)
...

Manuel Bandeira
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
E como farei ginástica
Em Pasárgada tem tudo
E quando eu estiver mais triste
Porque relembrar é viver, então... Vou - me embora pra pasárgada.
Mais um ciclo que se fecha, mais um final trágico, mais um começo esperado.
Tudo é aprendizado, mesmo que nem tudo valha a pena.
Então vamos buscar,
aventuras experimentar,
beijar flores e cores
Viver todo o dia antes que seja muito tarde
Para eu poder sonhar
Agora é Tarde Para eu poder brincar
E o trem já está partindo, o trem já está partindo.
tarde, para eu poder jogar
tarde, para eu poder ganhar
e o trem vai decolar, o trem vai decolar.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eu me derramo em seus braços e me deixo levar pelos seus ventos,
pelas suas tempestades, pelos seus nortes e estações...
Eu me deixo marcar pelo seu lápis implacável e deixo que ele
desenhe em minha pele o formato das horas, dos dias, da sua própria eternidade.
Eu me ponho nas mãos dele. Confio no tempo pois sei que ele é sábio.
Não o temo.
O que me aflinge é tudo aquilo que fica pelo caminho, inevitavelmente.
Tudo o que fica pra trás, tudo o que eu perco enquanto ele passa, enquanto espero.
No fim, sou mesmo como um planeta sendo dizimado aos poucos por
mãos desatentas, invadido por olhos não mansos.
Um planeta escaziado, entrando em extinção. Com saudades de mim.
O que me aflinge é ser assim, descartável, tão finita.
Tão inevitavelmente esquecível.
O que me dói é ver as coisas indo embora, mesmo tendo lutado tanto. (Em vão).
Não. Eu não fujo do tempo. Sou amiga dele, acredite...
Embora ele me arranque as coisas às vezes.
Eu o respeito. Eu o sinto.
Eu apenas desejo que meus pés sempre me levem para o melhor caminho possível.
Escolho as minhas estradas pelas cores de suas pedras, não pela sua extensão.
E enquanto sigo pela estrada que escolhi, quero mais é recolher a vida,
derramada no chão parte por parte, pelo caminho...
Porque um dia o tempo arrancará isso também.
E eu escolhi existi! No caminho, na vida, na eternidade.
Embora muito, embora o tempo...


