sexta-feira, 30 de outubro de 2009


“Na tarde em que escrevo, o dia de chuva parou. Uma alegria do ar é fresca demais contra a pele. O dia vai acabando não em cinzento, mas em azul-pálido. Um azul vago reflete-se, mesmo, nas pedras das ruas. Dói viver, mas é de longe. Sentir não importa. Acende-se uma ou outra monta. Em uma outra janela alta há gente que vê acabarem o trabalho. O mendigo que roça por mim pasmaria, se me conhecesse. No azul menos pálido e menos azul, que se espelha nos prédios, entardece um pouco mais a hora indefinida. Cai leve, fim do dia certo, em que os que crêem e erram se engrenam no trabalho do costume, e têm, na sua própria dor a felicidade da inconsciência. Cai leve, onda de luz que cessa, melancolia da tarde inútil, bruma sem névoa que entra no meu coração. Cai leve, suave, indefinida palidez lúcida e azul da tarde aquática – leve, suave, triste sobre a terra simples e fria. Cai leve, cinza invisível, monotonia magoada, tédio sem torpor.”

O Livro do desassossego.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


“Num dado momento penso que num canto de mim nascerá uma planta. Começo a rondá-la, achando que nesse canto se produziu alguma coisa rara, mas que poderia ter futuro artístico. Eu estaria feliz se essa idéia não fracassasse de todo. Contudo, devo esperar por um tempo ignorado: não sei como fazer a planta germinar, nem como favorecer seu crescimento, nem como cuidar dela; só pressinto ou desejo que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se certos olhos olharem para ela. Devo tomar cuidado para que não ocupe espaço demais, para que não pretenda ser bela ou intensa, mas que seja a planta que ela mesma está destinada a ser, e que eu possa ajudá-la a sê-lo. Ao mesmo tempo, ela crescerá de acordo com um observador que não se importará muito em querer lhe sugerir intenções ou grandezas demais. Se for uma planta dona de si mesma, terá uma poesia natural, desconhecida para si própria. Ela deve ser como uma pessoa que não sabe quanto vai viver, mas que tem necessidades próprias, com um orgulho discreto, um pouco desajeitada, e que pareça improvisada. Ela não conhecerá suas próprias leis, embora as tenha no mais fundo e a consciência não as possa alcançar. Não saberá o grau e a maneira como a consciência intervirá, mas em última instância imporá sua vontade. E ensinará a consciência a ser desinteressada.”

Felisberto Hernández

sexta-feira, 16 de outubro de 2009


- Lembra como foi na primeira vez?
- Lembro sim. Eu te olhei, mas tu não me olhaste.
- Olhei sim, logo que cheguei lá, te vi.
- Mas eu estava de costas. Eu não te vi. Vi teu nome na lista. Doeu um pouco meu coração, mas na mesma hora pensei: "Pára, idiota. Tu estás namorando.".
- Mas pensou em mim?
- Não consegui dormir as noites anteriores da festa. Sonhava com teu nome na lista. O teu nome que rima com "mel". Como gostaria de ter aquele teu doce todo. E me punia por pensar assim.
- Ainda bem que não ficou te punindo a vida toda.
- Ainda bem mesmo.
- Eu não esperava que tudo isso acontecesse.
- Eu esperava.
- Não sabia de onde tirar coragem. Daí eu abri a minha cartola com borboletas mágicas e acreditei.
- Fico feliz.
- Te ter na minha vida é uma vitória.
- Me beija?
- Vamos ser felizes pra sempre!

PS: A tua borboleta gravada no ventre permanecerá para sempre na memória do meu coração.

[Persona non grata]

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo, me distanciava lá da fazenda, e se acaso distraído eu perguntasse "para onde estamos indo?" - não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: "estamos indo sempre para casa".
(Raduan Nassar - Lavoura Arcaica)

...

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei


Porque relembrar é viver, então... Vou - me embora pra pasárgada.
Mais um ciclo que se fecha, mais um final trágico, mais um começo esperado.
Tudo é aprendizado, mesmo que nem tudo valha a pena.


Então vamos buscar,
aventuras experimentar,
beijar flores e cores
Viver todo o dia antes que seja muito tarde
Para eu poder sonhar
Agora é Tarde Para eu poder brincar
E o trem já está partindo, o trem já está partindo.
tarde, para eu poder jogar
tarde, para eu poder ganhar
e o trem vai decolar, o trem vai decolar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Não é o tempo que me aflinge. Não Fujo dele.
Eu me derramo em seus braços e me deixo levar pelos seus ventos,
pelas suas tempestades, pelos seus nortes e estações...
Eu me deixo marcar pelo seu lápis implacável e deixo que ele
desenhe em minha pele o formato das horas, dos dias, da sua própria eternidade.
Eu me ponho nas mãos dele. Confio no tempo pois sei que ele é sábio.
Não o temo.
O que me aflinge é tudo aquilo que fica pelo caminho, inevitavelmente.
Tudo o que fica pra trás, tudo o que eu perco enquanto ele passa,
enquanto espero.
No fim, sou mesmo como um planeta sendo dizimado
aos poucos por
mãos desatentas
, invadido por olhos não mansos.
Um planeta escaziado, entrando em extinção. Com saudades de mim.
O que me aflinge é ser assim, descartável, tão finita.
Tão inevitavelmente esquecível.
O que me dói é ver as coisas indo embora, mesmo tendo lutado tanto. (Em vão).
Não. Eu não fujo do tempo. Sou amiga dele, acredite...
Embora ele me arranque as coisas às vezes.
Eu o respeito.
Eu o sinto.

Eu apenas desejo que meus pés sempre me levem para o melhor caminho possível.

Escolho as minhas estradas pelas cores de suas pedras, não pela sua extensão.

E enquanto sigo pela estrada que escolhi, quero mais é recolher a vida,
derramada no chão parte por parte, pelo caminho...
Porque um dia o tempo arrancará isso também.
E eu escolhi existi! No caminho, na vida, na eternidade.
Embora muito, embora o tempo...

Quando parti, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, parti.

[C.F.A]

domingo, 4 de outubro de 2009


Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços...
São os teus braços dentro dos meus braços,
Via Láctea fechando o Infinito.
[Florbela Espanca]

Como sorrisos ao amanhecer,
como a Lua dos dias nublados...

É a vida... e ela é linda...